terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Diários pessoais - a prova

Dia 27 - a prova de que consigo vencer com diplomacia e serenidade.

Indo pra guerra.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Frisson da borracha verde

Lembrei de uma história quando acordei. 

Eu estava no pré de 6 - na minha época era assim que se falava - e pertencia a um grupinho de umas seis meninas mais ou menos. Não me recordo de todas, mas certamente nunca me esqueceria da Annie.

Havia comprado uma borracha muito boa; verde, grande e com as duas pontas em diagonal. De repente ela sumiu. Sem mais, nem menos. Eu levantei da minha cadeira micro verde e fui até a cadeira super alta falar com a Tia Irani. " Tia Irani, não encontro minha borracha, como pode? Eu acabei de usar ela, ela estava na minha mesa agorinha". E a Tia Helena mobilizou a sala para ver se achavam a tal da borracha caída em algum canto da sala. Nada.

Diante do nada eu olhei pra Annie e fui direto na mochilinha rosa de bichinho dela. Era linda, perfeita, acho que era o leitão do pequeno Pooh. Não foi preciso procurar muito pra achar a borracha. Lá estava ela. A Annie tinha gostado tanto que pegou pra ela. Mas eu gostava mais ainda, estão peguei de volta.

Então foi assim, que pela primeira vez, eu me recordo de ter seguido a minha intuição. 





sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Diários Pessoais - primeira mudança nos planos

23 de Dezembro


Ontem estava muito angustiada quando fui finalizar a compra do Interrail. Nenhum plano servia realmente para a minha programação nada convencional de viagem. Dividir a viagem entre avião e trem foi uma boa ideia quando se pensa em economizar tempo; mas um problema quando isso te impede de ter uma liberdade para escolher os dias de chegada e partida de cada cidade. Tudo bem que existe um roteiro, mas as viagens de avião exigem que você esteja naquela exata hora, naquela exata cidade. Enfim, por dois motivos estou desistindo da viagem para Krakóvia. O primeiro motivo é por querer garantir a liberdade de sair de Paris e ir com calma pra Berlim. O segundo é porque a Krakóvia iria tirar nosso tempo nas Dutch Lands.
O problema da viagem: deixar a Krakóvia e os campos de Auschwitz de Lado! 

Ainda no Porto - dezembro 2011
Essas viagens me colocam diante do meu principal desafio pessoal: fazer escolhas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diários pessoais


London - Outono 2011


Solstício de Inverno. Já se foi o strip tease da natureza ( sic Ana Luiza). Todo as inqueatações de outono se foram também. Um mal estar do corpo, um querer se encaixar no tempo. Uma excitação de que se deve continuar por onde está indo e uma dúvida de que se deve voltar.  Tudo passa quando é inverno. Vem dezembro com todo seu drama e também com sua clarividência. Coloca nas nossas mãos os espectros do que foi, do que não foi, do que não mais vai poder ser. Leva embora paixões passadas; deixa elas se perderem, se esquecerem no tempo. Lembranças outras que ficam, laços outros que se firmam, se reafirmam e pedem uma volta. Viajo porque preciso, volto porque te amo; não há mais "minha" paixão, mas um objeto utópico de Eduardo Galeano, que me faz voltar, amar nem mesmo o país, mas algo que se ama antes mesmo de saber o que é. Viajo, viajo porque preciso. Meus diários pessoais são sobre isso. Viajo porque preciso, não porque te amo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Boa Vista



Tapava ela seus olhos com negativos antigos e desgastados pelo tempo. Vestido de seda na ponta dos dedos, corria feito louca desvairada à beira daquela estrada sem fim. Terra nas mãos, apertava e os grãos iam escorrendo pelos dedos manchados. Cravava nas unhas gravetos, terra e barro. Mato que perdia de vista. Terra do vô. Brasão português e sangue azul que manchava as paredes e os portões de madeira da casa, daquela Boa Vista.Tudo que tinha ficado perdido no tempo. Nascia sempre de memórias e futuro à distância. Vestida de seda até a ponta dos dedos, os mesmos manchados sempre de terra.

Meio tarde já, dia morrendo, ela saia pra enterrar o passarinho que tinha bicado a janela da sala. Ia enterrar ele sozinha, fazer uma cruz sozinha, de gravetos enlaçados por um caule qualquer. Com o coração apertado, sepultava o frágil bichinho. Escolhia o jardim. Muitos passarinhos estão ali embaixo dos espinhos. (era criança ainda para entender porque num jardim não existiam flores e somente espinhos, mas enterrou mesmo assim). Nem era tarde, e era óbvio pra entender que a solidão dos homens e ausência das mulheres não fazia nascer, e ao menos crescer flores. A vó tinha abandonado a fazenda. E ela nunca tinha entendido o  porquê. Nem ninguém tinha. Desde então, os armários eram trancados, os jardins cheios de espinhos e os vidros arruinados pelos reflexos dos pássaros. Que bicavam, quebravam o vidro e depois morriam. 

Mais tarde ainda, a mãe saia da casa desgastada pelo tempo e arruinada pela falta de vida, para fincar os pés na terra do Jardim de espinhos. E vestida de seda até a ponta dos dedos, ela aprendeu com a mãe a cravar lá os pés também. Aprendeu a caminhar até o final da estrada, e depois voltar. Sem tempo pra voltar, apenas de ir. Ele, o tempo, parecia ir seguindo elas por detrás da brisa empoeirada. Não ditava, apenas cumpria a sua função natural do passar. Deram - se todos eles as mãos, num acordo justo e sincrônico; e ele então pode lhes mostrar a natureza justa das coisas.

Tinham gatinhos do mato no muro do estábulo, passava curiosa no meio de todas as vacas enforcadas por aquela coisa que ela ainda não sabia qual era o nome. Tentava um carinho, mas não, nunca conseguiu se aproximar deveras das vacas. Mas os bezerros ela agarrava com toda a força. E os gatinhos, ah, esses fugiam. Mas a paixão eram os cavalos, era claro que na solidão sem fim daquela terra ditada pela melancolia, os homens se sentiam menos tristes quando lidavam com eles. Eram esses a razão para toda aquela estrutura que precisava do afinco da alma. E do corpo exausto de todos os dias.

Deitava em sonhos nas folhas secas do chão úmido. Cheirava o bosque o acre e húmus. Passava o tempo, inconsumível, prosaico pelas palmas das mãos, que amassavam as flores miúdas e as jaboticabas caídas. E foi assim o prazer mais pueril que ela encontrava nos tempos de veraneio. As raízes já estavam fincadas na suas pálpebras e nos seus pés. O mesmo cheiro da terra, da mesma que cravava os dedos, faria ela lembrar, depois de 15 anos, o gosto verdadeiro da sua infância.

Descobriu então, o que era simplicidade.











quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quadrilha

É o seguinte. Já reparou naquele poema do Carlos Drummond de Andrade, Quadrilha?

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história



O cara é um gênio.

terça-feira, 27 de setembro de 2011





walls Soho - New York









Reprodução: Don't touch my moleskine.

domingo, 25 de setembro de 2011

Como descomplicar: histórias de quando eu me assumi ser.... simples.

Então, foi ontem. Me assumi indiscutivelmente ( não há mais filosofia de buteco que me contrarie) ser uma pessoa simples. Eu decidi por um motivo óbvio, sou cartesiana até o último fio de cabelo para tomar decisões levianas.


ps 1: Sendo assim, achei necessário estabelecer um prazo de 24h para que meu cérebro assimilasse a ideia de que a partir do próximo dia, eu iria ter que aparentemente, mudar... É, mudar! Ninguém irá perceber a tal mudança (esquisita) porque o caminho da simplicidade é solitário. A nova mudança na vida veio como toda mudança que se preze, arrastando tudo o que vê ( e não vê) pela frente. Como sair de casa para comprar sorvete e voltar apaixonada. Tudo mudou, e você nem lembra de como era a vida há uns instantes atrás.



Dada a mudança inventiva, procurei alguns frases sobre simplicidade: ( não vou citar autores, isso aqui não é jornalismo)


  • “A simplicidade consiste em subtrair o óbvio e acrescentar o significativo.”

  • " Simplicidade é o que há de mais sofisticado".
  • " Vai diminuindo a cidade, vai aumentando a simpatia, quanto menor a casinha ai ai, mais sincero o bom dia." Café tá quente no forno, barriga não tá vazia, quanto mais simplicidade ai ai, melhor o nascer do dia."
  • "Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho."


A lição mais importante veio na leitura de "Mulheres que Correm com os Lobos" de Clarissa Pinkola. Entre uma das histórias arquetípicas da Mulher Selvagem, um pequeno ensinamento arrebatador; Tudo na vida tem uma razão de ser...!


Tive crise de labirintite, porque a minha fita cognitiva rebobinava numa velocidade assustadora, e fotografias lomo passavam diante dos meus olhos. Teoria da evolução de Darwin, Teoria sobre a origem do homo sapiens, a história da arte, a arte que imita a vida. Os símbolos, e sua força através do tempo. As incontáveis formas de enxergar a história e interpretar os acontecimentos. As travessias que a gente vivencia, os rituais, que fazem com que os seres humanos coloquem a vida em perspectiva, que reunem as sombras e espectros da vida das pessoas, como que os organizam e os fazem repousar. As Mulheres que são alvos de alterações brutais de hormônio durante a vida inteira, e ainda enfrentam o senso comum de serem as sensíveis, passionais, descontroladas, complicadas, contraditórias, raivosas, esquisitas, confusas, exageradas, enfim, um indivíduo não confiável...! Se não fossem os estigmas causados pelas adjetivações da mulher, poderíamos ser dionisíacas sem culpa...


Eu estava falando sobre simplicidade...


ps2 Seria um ótimo momento de reflexão a TPM se não nos sentissem tão culpadas por todos os nossos pecados cristãos. Se é, apenas um momento, que poderíamos trabalhar ainda com mais tesão, no despedaçar dos nossos desejos mais profundos, das nossas buscas imemoriais, das inquietações que precisam ganhar voz, que precisam gritar, pulsar, viver. Tudo isso sem precisar transpor a barreira das opressões que sofremos na sociedade carente de vontade por verdadeiras transformações sociais, que sejam regidas pela verdadeira independência do indivíduo, excluso de qualquer preconceito e estigma.


Então, a simplicidade...


Tudo tem uma razão de ser. É um fato consumado a percepção de que só vamos descobrindo as várias razões do ser, quando envelhecermos e adquirirmos maturidade. Descobri funções de objetos, nomes de músicas, compreendi poesias, decorei nomes de cidades, me adentrei em novas culturas, suportei saudade, perdi um grande amor e passei a entender o ciclo vida - morte - vida. Descobri sufoco, esquizofrenia... e aprendi a viver nos extremos, viver de exageros, hoje estou eu, discípula da simplicidade. Em busca do pensar menos, viver mais. O ruim é encontrar pessoas pelo caminho que pensam demais, demais demais, e não deixam o barquinho fluir. Mas enfim, o fato é que a minha declaração de amor à simplicidade vem da vontade de realmente ser verdadeira até às vísceras com meus despropósitos existenciais.


Definitvamente, a simplicidade...


Noutras palavras, é miserável a busca pelo simples! Você precisa chegar até o último degrau para entender que a felicidade estava lá nos primeiros. Fico dando voltas e voltas. E simplicidade é tão complexa e tão fina como uma taça de vinho do Porto, safra 1850. Desconfio que o resto é bobagem.

É, eu desisto de ser simples. Não é da minha natureza.






















domingo, 4 de setembro de 2011

Ces't fini


Ces't fini! Olhei para todos os olhos amicos (porque se pode olhar o corpo, olhar de lado, "que olhando assim de lado eu, te acho tão bonito", olhar de soslaio, olhar de rabo de olho, olhar como quem não quer nada, ad infinitum); o olhar verdadeiro, olhos nos olhos, é muito, excepcionalmente raro de acontecer. Mas olhei para todos os olhos amicos com a ternura do novamente, querer conhecer. Olhei com os olhos de quem quer furar, quer adentrar o corpo do outro, sê - lo por um instante. Olhei, porque é preciso olhar, quando se está a caminho. Quando se coloca o pé na estrada, outra vez. Sem referências, sem documentos, sem lenços para secar as lágrimas que iriam vicejar o amargo. Sem os lenços, que iriam lhe servir de braços, e esses mesmos, que iriam virar travesseiro. Sem nada, Rien, te vai.

Ces't fini! E mais uma vez, diante estou eu, do abismo. Te vai. E pela primeira vez, eu fui. Sem as verdades de outra vez. De outro momento imemorial. Devo estar no deserto da minha psique, juntando meus ossos, para poder me manter em pé, segura e profunda, outra vez.

Ces't fini! Mergulhar dentro do self é um corte profundo. No primeiro momento, talvez você pense não aguentar todas as máscaras que vê diante de si. Face - a - face, é como se você fosse arrancando elas do rosto, e a medida que uma caísse no chão, a outra aparecia. A cada máscara caída, mais veneziana a outra se revelava. Somos pois, persona, antes de, identificar o próprio ser (não posso esconder a influência de Bergman). É ardente, o mergulho atormentado para os interiores. Mas vale todos os olhares que se vê por outro lado; mas vale o mergulho para deixar morrer, o que precisa morrer, e deixar viver, o que precisa (e merece) viver.

Ces' t fini! E no estado de leitura interiorana, queira ficar só, para deixar cantar o que quer cantar dentro de ti. Aprenda, é melhor, a obedecer os ciclos da vida. Se formos velhinhos um dia (não sei muito bem para quem estou falando, talvez seja só a mim) vamos saber que a guerra longa, e a vida... A vida é curta...

Ces't fini! É atormentador mas é na equivalência, mágico, o caminhar sozinha. Então, "vai caminhante, antes do dia nascer".





domingo, 7 de agosto de 2011

Lembrar.


Não adianta querer navalhar,
eu já tô cheia de querer te arrancar do meu peito sem dó, nem piedade.
De querer te enterrar, e te declarar morto em mim.
Mas você não morre dentro de mim.
E pra que navalhar?
Se me corto toda e nem um êxtase me tem?
De fato, e ato.
Até morrer,
É você,
que eu vou querer.
E no ímpeto eu já nem sei..
E eu já nem quero saber...
Se a ausência,
é morte irreversível do amor.
Eu já nem quero saber...
Ai, essa lembrança.
vazios,
abismos,
flores,
ai, essa lembrança,
que me leva
até onde
eu não posso te ver,
mas te sentir
de novo
outra vez.


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